Curiosidades sobre quem ganha dinheiro com a Copa do Mundo
- Foquemos

- 17 de jul.
- 5 min de leitura

Quando 48 seleções entram em campo, o que está em jogo vai muito além da taça. A Copa do Mundo movimenta dezenas de bilhões de dólares — e os números mais recentes mostram que a máquina dobrou de tamanho.
Você já parou para pensar quem realmente embolsa a grana quando a bola rola numa Copa do Mundo?
A resposta óbvia é: a FIFA. Mas o mais interessante é como essa máquina funciona, quanto ela gera e — principalmente — quem arca com os custos. E os números de 2026 são de tirar o chapéu.
O cofre da FIFA: US$ 13 bilhões e subindo
Vamos começar pelo alto. A BBC revelou que a FIFA está projetando receitas de quase US$ 13 bilhões no ciclo 2023-2026 — praticamente o dobro dos US$ 7,57 bilhões registrados no ciclo anterior (2019-2022). Não é erro de digitação: a máquina quase dobrou de tamanho em um único ciclo de quatro anos.
E não para por aí. O Guardian reportou que, após bater metas, a FIFA já aprovou um orçamento de US$ 14 bilhões para o próximo ciclo (2027-2030).
Mas de onde vem esse dinheiro? A Forbes destrinchou o orçamento de US$ 3,76 bilhões que a entidade reservou especificamente para a operação da Copa de 2026. O raio-x completo mostra uma mudança profunda na composição das receitas:

O que mais chama a atenção nessa comparação?
1. TV ainda manda, mas cresce menos. Os direitos de transmissão subiram de US$ 3,43 bilhões para US$ 4,26 bilhões (+24%). Sólido, mas não é o grande destaque. A Ampere Analysis estima que as receitas de mídia cheguem a US$ 3,8 bilhões só com a Copa — alta de 22% sobre 2022.
2. Patrocínios decolam. A receita de marketing saltou de US$ 1,8 bilhão para US$ 2,69 bilhões (+50%). A Forbes já mostrou que marcas estão gastando US$ 10,5 bilhões no total com a Copa. A Ampere projeta que o patrocínio da Copa de 2026 seja o maior da história para um evento esportivo isolado: até US$ 2,4 bilhões.
3. O verdadeiro tsunami: hospitalidade e ingressos. Esse é o dado que muda o jogo. A receita com ingressos e hospitalidade mais que triplicou: de US$ 949 milhões no ciclo passado para US$ 3,1 bilhões no orçamento atual. +226%.
Sabe por que essa explosão em hospitalidade? A FIFA passou a gerir a hospitalidade internamente (antes terceirizava) e, como a SportsPro apontou, implementou um sistema de precificação dinâmica pela primeira vez na história das Copas — preços que sobem conforme a demanda. A FIFA também criou uma plataforma oficial de revenda, embolsando 15% de cada transação (do comprador e do vendedor). Resultado: um ingresso para a final chegou a ser listado por US$ 11,5 milhões.
No total, a FIFA já recebeu mais de 500 milhões de pedidos de ingressos.
O lado B: quem paga a conta?
Se a FIFA fatura bilhões, alguém precisa bancar a estrutura. E aí a história muda de figura.
O artigo da Britannica Money traz uma distinção crucial: a receita da FIFA e a economia da cidade-sede são duas realidades completamente diferentes.
Enquanto a FIFA centraliza os lucros de transmissão, patrocínios e licenciamento, as cidades anfitriãs arcam com os custos operacionais reais: segurança, transporte, saneamento, modificações em estádios, comunicação pública, planejamento emergencial. E esses gastos começam anos antes de a primeira bola ser chutada.
Alguns números que ilustram esse descompasso:
Nos EUA, a FEMA (agência federal de emergências) destinou US$ 625 milhões exclusivamente para segurança nas 11 cidades-sede americanas.
Em Foxborough, Massachusetts — cidade de 18 mil habitantes — foram necessários US$ 7,8 milhões em segurança pública para sediar sete jogos no Gillette Stadium. Os moradores locais se recusaram a pagar a conta; o dinheiro saiu de um fundo privado.
No Canadá, os custos de Toronto dispararam de dezenas de milhões para algo em torno de US$ 380 milhões (~R$ 2 bilhões).
No México, a taxa de hotéis em certas cidades subiu quase 1.000% conforme o torneio se aproximava.
Brasil 2014: o conto de advertência
Se você acha que isso é exagero, a Britannica resgata um exemplo que dói no bolso de qualquer brasileiro: a Copa de 2014.
O Brasil gastou uma fortuna em estádios. Cerca de 85% desse investimento foi bancado com dinheiro público. E o resultado? Vários dos 12 estádios construídos ou reformados viraram "elefantes brancos" — obras faraônicas cujo custo de manutenção supera em muito qualquer retorno.
Os economistas Robert Baade e Victor Matheson estimaram que o impacto econômico real da Copa de 1994 (sim, a dos EUA) ficou entre US$ 5,5 bilhões e US$ 9,3 bilhões abaixo das projeções pré-torneio. Ou seja: as promessas de riqueza raramente se concretizam na proporção prometida.
2026: o experimento trinacional
A Copa deste ano é histórica por um motivo adicional: pela primeira vez, três países sediam o torneio simultaneamente — Estados Unidos, Canadá e México. Com 48 seleções (contra 32 das edições anteriores), a lógica é espalhar o peso logístico e financeiro.
A vantagem? Ninguém precisa construir um estádio do zero — as arenas já existem. Mas a desvantagem é que até estádios prontos exigem adaptações: instalação de grama natural, ajustes de dimensões de campo e adequação aos rígidos padrões comerciais da FIFA (o chamado "clean site").
Em termos de impacto mais amplo, a FIFA cita uma análise da Organização Mundial do Comércio (OMC) que estima que o torneio gerará US$ 80,1 bilhões em produção econômica bruta, incluindo US$ 30,5 bilhões só para os EUA.
O prize money também bateu recorde: US$ 871 milhões no total — cada seleção recebe no mínimo US$ 12,5 milhões (US$ 2 milhões a mais que em 2022), e a campeã pode embolsar até US$ 53,5 milhões, US$ 11,5 milhões a mais que a Argentina recebeu há quatro anos.
Isso sem falar na complexidade de coordenar segurança, imigração, transporte e infraestrutura em três países, 16 cidades-sede e dezenas de jurisdições diferentes.
Afinal, a Copa vale a pena?
A resposta é: depende de quem você é.
Se você é a FIFA → vale e muito. Receitas projetadas de ~US$ 13 bi, risco financeiro quase zero, toda a grana centralizada. A entidade já está de olho em US$ 14 bi no próximo ciclo.
Se você é uma cidade-sede → pode valer, mas o risco é alto. Os ganhos com turismo são reais, mas os custos com segurança e infraestrutura são igualmente reais.
Se você é o contribuinte local → aí o negócio é mais delicado. Estudos mostram que os benefícios econômicos são frequentemente superestimados antes do evento, enquanto os custos tendem a estourar o orçamento.
O que fica claro é que a Copa do Mundo é, acima de tudo, um negócio espetacularmente lucrativo para quem detém os direitos comerciais. Para as cidades e os torcedores, o legado é uma aposta — que ora dá certo como Barcelona 1992, ora vira um alerta como Brasil 2014.
Agora só falta saber quem leva a taça. Na sua opinião sincera: Espanha ou Argentina?




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