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Desligue o ruído. Ligue a sua escolha.

Foto do escritor: Adriano Pescada
Adriano Pescada
1 de out.
4 min de leitura


Neste domingo, 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiros(as) vão às urnas. E, se você está lendo isso antes de votar, existe uma chance de você estar exausto. Exausto(a) de debates, de enquete, de pesquisa divulgada na hora errada, de influencer dando palpite, de parente mandando áudio, de "olha, você precisa ver esse vídeo". Três meses de campanha transformaram o seu celular numa máquina de fazer você pensar pelos outros.


Aqui vai o convite deste artigo: desligue tudo isso.


Não porque a informação faz mal — ela não faz. Faz mal o ruído: aquele volume de opiniões alheias que chega antes da sua própria reflexão e ocupa o lugar que seria seu. Pesquisa eleitoral não é instrução de voto. Influencer não é conselheiro político. E bolha não é opinião: é eco.


A eleição é o único momento em que o poder volta, inteiro, para a sua mão. Não terceirize.


A urna pergunta primeiro por quem ninguém lembra


Aqui vai um detalhe que quase ninguém repara: a urna eletrônica pede os votos numa ordem que é o oposto do que a TV discute. Primeiro deputado federal, depois deputado estadual, depois senadores, depois governador — e só no final, presidente.


A máquina pergunta primeiro pelo Congresso. O país passou meses discutindo apenas as duas últimas teclas.


Não é culpa sua não lembrar do seu deputado. Em junho, o Datafolha perguntou às pessoas em quem elas tinham votado em 2022: para presidente, menos de 10% não souberam responder. Para deputado federal, quase 70% não lembravam. O esquecimento não é acidente — é desenhado.


O seu voto passa primeiro pelo partido — e só depois chega ao candidato, se chegar


Vale entender o mecanismo em um parágrafo. Somam-se todos os votos que o partido recebeu (nos candidatos e na legenda) e divide-se pelo quociente eleitoral — o total de votos válidos do estado dividido pelo número de cadeiras. Cada quociente atingido vale uma cadeira, e as cadeiras descem pela lista do partido, do mais votado para baixo.


O resultado? Segundo levantamento do DIAP citado pela newsletter Subscrito, em 2022 apenas 28 dos 513 deputados federais alcançaram o quociente com os próprios votos. Os outros 485 chegaram a Brasília de carona. De cada 20 deputados, 19 ocupam a cadeira graças a votos que não foram dados a eles.


E quem paga a campanha dessa "dobradinha" — o nome conhecido na frente, a fila de desconhecidos no verso — é dinheiro público: neste ano, o Fundo Eleitoral distribui cerca de R$ 4,9 bilhões entre 30 partidos, e é a direção de cada legenda que decide quem recebe quanto. Quem elege mais deputados recebe mais fundo; quem recebe mais fundo elege mais deputados. O cofre alimenta a bancada, e a bancada alimenta o cofre.


A conclusão é desconfortável, mas útil: o voto no "cabeça de chapa" é o que mais escorre. Ele se elegeria sem você. O que você der a mais desce pela lista até parar em alguém que talvez nunca ganharia uma eleição de síndico — mas subiu dentro do partido fazendo sabe-se lá o quê.


Do outro lado do ruído: o pensamento binário


Existe um segundo ruído, mais silencioso, que não vem das pesquisas nem dos influenciadores: vem de dentro. É a ideia de que só existem dois lados — e que tudo o que é dito só pode ser compreendido como "a favor" ou "contra" o seu candidato do coração.


É esse pensamento binário que transforma qualquer reflexão em provocações nos comentários, que acusa o mesmo vídeo de ser comunista e fascista, que prefere gritar a bandeira a entender o argumento. E é ele que faz muita gente entrar na cabine de votação sem ter pensado — só tendo torcido.


Ter posicionamento político não é o problema. O problema é se deixar secar por ele e buscar o tempo todo invalidar o posicionamento alheio. A vida não é preto e branco — e nem é feita de tons de cinza: ela é multicolorida, com gamas e nuances que o ruído não deixa você enxergar. Como dizia a inscrição do Oráculo de Delfos: conhece a ti mesmo. Siga os seus valores, não as ideias prontas que são lançadas o tempo todo como anzóis no mar.


O que fazer neste domingo?


Sem indicar candidato — porque essa escolha é sua, e é exatamente esse o ponto:


Desligue o ruído nas 48 horas que restam. Menos timeline, mais reflexão.

Prepare a colinha com os números de todos os candidatos que você escolheu — não só presidente. A urna pergunta primeiro pelo Congresso.

Pense em cada cargo com o mesmo cuidado. Deputado estadual, federal, senador e governador decidem coisas que chegam mais perto do seu dia a dia do que qualquer debate de presidenciáveis.

Vote por convicção, não por pressão. Se a sua decisão sobreviveu ao silêncio, ela é sua.

O voto é a única hora em que todos nós temos exatamente o mesmo poder — o vereador e o CEO, o piloto e o comissário, você e quem discorda de você. É pouco tempo de poder, mas é seu.


Exerça-o. Desligado do ruído, ligado na própria consciência. Capricha, bonitão!

 
 
 

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